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27.5.07
Ruy Belo
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(versão 2341b - série "artes")
E tudo era possível Na minha juventude antes de ter saído da casa de meus pais disposto a viajar eu conhecia já o rebentar do mar das páginas dos livros que já tinha lido Chegava o mês de maio era tudo florido o rolo das manhãs punha-se a circular e era só ouvir o sonhador falar da vida como se ela houvesse acontecido E tudo se passava numa outra vida e havia para as coisas sempre uma saída Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer Só sei que tinha o poder duma criança entre as coisas e mim havia vizinhança e tudo era possível era só querer 12.5.07
Luiza Neto Jorge
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(versão 2337a - série "artes") Não podendo falar para toda a terra
direi um segredo a um só ouvido. ![]() Look At His Ears! de Alphonse Bertillon 6.4.07
Manuel Bandeira
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(versão 2317a - série "artes")
O último poema Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. Foto de Daniel Furtado 25.2.07
Ruy Belo
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(versão 2308a - série "artes")
Digam que foi mentira Digam que foi mentira, que não sou ninguém, que atravesso apenas ruas da cidade abandonada fechada como boca onde não encontro nada: não encontro respostas para tudo o que pergunto nem na verdade pergunto coisas por aí além Eu não vivi ali em tempo algum 13.2.07
José Tolentino Mendonça
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(versão 2305a - série "artes") A casa onde às vezes regresso é tão distante
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã no mundo a água tomou o lugar de tudo reúno baldes, estes vasos guardados mas chove sem parar há muitos anos Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai uma viagem se deu entre as mãos e o furor uma viagem se deu: a noite abate-se fechada sobre o corpo Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração 11.2.07
Tonino Guerra
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(versão 2299a - série "artes") Os Dois Irmãos
Um foi prisioneiro na Alemanha e há trinta anos olha fixamente o pão como se tivesse a fome de outrora. O outro fez a guerra em África e a água no copo contempla-a com a sede do deserto. Hoje fechados em casa não querem ver ninguém. Dormem de costas voltadas com o rosto afundado no travesseiro da grande cama. Às vezes saem de noite por estradas largas e vazias como a Lua e a Terra no céu um atrás do outro não se sabe para onde. 4.2.07
Fernando Assis Pacheco
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(versão 2288a - série "artes") A Profissão Dominante
Meu Deus como eu sou paraliterário à quinta-feira véspera do jornal nadando em papel como num aquário ejectando a minha bolha pontual de prosa tirada do receituário onde aprendi o cozido nacional do boçal fingido o lapidário - fora algum deslize gramatical - receio que me chamem extraordinário quando esta é uma prática trivial roçando mesmo o parasitário meu Deus dá-me a tua ajuda semanal 28.1.07
Fiama Hasse Pais Brandão
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(1938 - 2007) (versão 2273e - série "artes") Partida
Noutro poema disse que proa e quilha se afastavam do molhe. As duas crianças vistas então na cena da partida tinham sido reais. No posterior momento da descrição as duas crianças estavam nitidamente sobrepostas. Ambas, uma imagem, ao dizê-lo. Ambas lançaram as vozes estridentes Sobre o bater do mar. Levadas de repente para longe do cais pela tracção fatal das máquinas do barco. Lenços acenam, por outras simultâneas crianças. Ao partirem, eu dizia que a ausência seria mais dura do que o bater da onda. Dizia que as duas vozes afastando-se vazavam de sons o meu peito, e que estar a ver partir o barco me deixaria na margem a meditar, e far-me-ia escrever poemas desabridos e amar outras crianças similares que não haviam partido ainda. 22.1.07
Fiama Hasse Pais Brandão
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(versão 2263d - série "artes") Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera se o sol todo-poderoso no alto as desfaria? Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse: todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar. Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos. (1938 - 2007) 15.1.07
Sylvia Plath
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(versão 2258b - série "artes")
Ariel
Stasis in darkness. Then the substanceless blue Pour of tor and distances. God's lioness, How one we grow, Pivot of heels and knees! -- The furrow Splits and passes, sister to The brown arc Of the neck I cannot catch, Nigger-eye Berries cast dark Hooks -- Black sweet blood mouthfuls, Shadows. Something else Hauls methrough air -- Thighs, hair; Flakes from my heels. White Godiva, I unpeel -- Dead hands, dead stringencies. And now I Foam to wheat, a glitter of seas. The child's cry Melts in the wall. And I Am the arrow, The dew that flies Suicidal, at one with the drive Into the red Eye, the cauldron of morning. Êxtase no escuro,
E um fluir azul sem substância De penhasco e distâncias. Leoa de Deus, Nos tornamos uma, Eixo de calcanhares e joelhos! - O sulco Fende e passa, irmã do Arco castanho Do pescoço que não posso abraçar, Olhinegra Bagas cospem escuras Iscas - Goles de sangue negro e doce, Sombras. Algo mais Me arrasta pelos ares - Coxas, pêlos; Escamas de meus calcanhares. Godiva Branca, me descasco - Mãos secas, secas asperezas. E agora Espumo com o trigo, reflexo de mares. O grito da criança Escorre pelo muro E eu Sou flecha, Orvalho que avança, Suicida, e de uma vez se lança Contra o olho Vermelho, fornalha da manhã. 13.1.07
Cesário Verde
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(versão 2250a - série "artes") Cabelos
Ó vagas de cabelos esparsas longamente, Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar, E tendes o cristal dum lago refulgente E a rude escuridão dum largo e negro mar; Cabelos torrenciais daquela que me enleva, Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus No báratro febril da vossa grande treva, Que tem cintilações e meigos céus de luz. Deixai-me navegar, morosamente, a remos, Quando ele estiver brando e livre de tufões, E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos E enchamos de harmonia as amplas solidões. Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom Como um licor renano a fermentar nos copos, Abismo que se espraia em rendas de Alençon! E ó mágica mulher, ó minha Inigualável, Que tens o imenso bem de ter cabelos tais, E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável, Entre o rumor banal do hinos triunfais; Consente que eu aspire esse perfume raro, Que exalas da cabeça erguida com fulgor, Perfume que estonteia um milionário avaro E faz morrer de febre um pobre sonhador. Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos, E vais na direcção constante do querer, Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos, Que fazem mansamente amar e enlanguescer. E a tua cabeleira, errante pelas costas, Suponho que te serve, em noites de Verão, De flácido espaldar aonde te recostas Se sentes o abandono e a morna prostração. E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos, Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor Que antigamente deu, nos circos dos romanos, Um óleo para ungir o corpo ao gladiador. ..................................................................................... Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio, Na vossa vastidão posso talvez morrer! Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio E quero asfixiar-me em ondas de prazer. 10.1.07
Al Berto
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(versão 2243e - série "artes") dizem: antes dele a pintura afundava-se naquilo que alguns pintaram para seduzir o olhar dos ignorantes e não o subtil prazer do espírito possuía um excepcional sentido do espaço e do volume foi reformador da pintura florentina reduziu tudo ao essencial suprimindo personagens acessórios detalhes e pela amplitude da composição arquitectural atingiu grandeza invejada e sem igual foi ele ainda o primeiro a enclausurar a alma no interior de corpos limitados e sólidos que nos convidam à reflexão sobre a natureza humana e sobre as coisas diáfanas do coração (Giotto: A Adoração dos Magos - 1304-1306) 7.1.07
António Maria Lisboa
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(versão 2234a - série "artes") Eu num camelo a atravessar o deserto com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta Eu num barco a remos a atravessar a janela da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas Eu na praia e um vento de agulhas com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia Eu na noite com um objecto estranho na algibeira - trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo 4.1.07
Herberto Helder
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(versão 2227a - série "artes") Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos detidos: hei-de partir quando as flores chegarem à sua imagem. Este verão concentrado em cada espelho. O próprio movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias internos. Vou morrer assim, arfando entre o mar fotográfico e côncavo e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas o sangue que se agrava. Está cheio de candeias, o verão de onde se parte, ígneo nessa criança contemplada. Eu abandono estes jardins ferozes, o génio que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva aos precipícios de agosto, e a mansidão traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas. Cada dia é um abismo atómico. E o leite faz-se tenro durante os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro que talha no calcário a rosa congenital. A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos. O verão é de azulejo. É em nós que se encurva o nervo do arco contra a flecha. Deus ataca-me na candura. Fica, fria, esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança dá a volta à noite, acesa completamente pelas mãos. ![]() 2.1.07
António Franco Alexandre
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(versão 2222d - série "artes") Em folhas de acetato me proteges
em folhas de acetato me proteges floresço em avenida litoral breve serei semente um céu e a terra plantado azul e sopro de marés as palavras fechadas com o jeito que a boca tem ao ver-se retratada quase um sabor razão acidulada me persegues de nomes, me retratas igual ao branco hotel onde regressa a não lembrada sombra do verão e pousam de ouro em água o só engano breve das rosas e da neve despertadas. (Ice Rose N.º 1 de Xiuxia Eva Jing) Distintos
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