eXtinto |
![]() |
25.6.04
Egito Gonçalves
Comentários:
(versão 792a - série "artes")
(1922-2001) Os Vegetantes Continuam aqui roendo as unhas! Substituem as unhas por poemas (ou cafés, futebol, anedotário) e estilhaçam espelhos que na luz ao seu devolvem a cruel imagem. Vidrado limo o rosto de rugas sem memória assistem à vida como um filme: disparar sobre a tela é proibido e além do mais inútil. Curvam ao solo os ombros escorjados; curvam-nos para duradouras urtigas, seixos sem horizontes, epitáfios de lama, dezembros, poeira fria. Se chovem as esperanças não acorrem a apanhá-las na boca ao ar aberto. Tijolo articulado a língua balbucia "É a vida!". Sementes violadas não germinam. Em vão os bombardeiros os oráculos com agulhas de sangue. Nada tentam para vida à fala que utilizam, ao país do cansaço que entre dentes ressaca. E fazem do amor essa triste umidade, um delíquio formal logo amortalhado. São dóceis, cibernéticos, dia a dia premiados de alguns gramas a mais no chumbo do pescoço. 23.6.04
José Craveirinha
Comentários:
(versão 787c - série "artes") Quero ser tambor ó velho Deus dos homens deixa-me ser tambor corpo e alma só tambor só tambor gritando na noite quente dos trópicos. E nem flor nascida no mato do desespero. Nem rio correndo para o mar do desespero. Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero. Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero. Nem nada! Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra. Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra. Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra! Eu! Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala. Só tambor velho de sangrar no batuque do meu povo. Só tambor perdido na escuridão da noite perdida. Ó velho Deus dos homens eu quero ser tambor e nem rio e nem flor e nem zagaia por enquanto e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando a canção da força e da vida só tambor noite e dia dia e noite só tambor até à consumação da grande festa do batuque! Oh, velho Deus dos homens deixa-me ser tambor só tambor!
(José Craveirinha - 1959) 18.6.04
José Craveirinha
Comentários:
(versão 772b - série "artes") A boca Jucunda boca
deslabiada a ferozes júbilos de lâmina afiada. Alva dentadura antónima do riso às escâncaras desde a cilada. Exotismo de povo flagelado esse atroz formato da fala. 5.6.04
Sophia de Mello Breyner Andresen
Comentários:
(versão 755a - série "artes") Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão. Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não. Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não. Sophia por Arpad Szenes 3.6.04
Florbela Espanca
Comentários:
(versão 743b - série "artes") Desejos Vãos Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu queria ser a Pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte! Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu queria ser a árvore tosca e densa Que ri do mundo vão e até da morte! Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores, também, como quem reza, Abrem, aos Céus, os braços, como um crente! E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia! E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!... Distintos
Elevador - RecentementExtintos
blogóxlico
bloggeXtualismoeXpoente, sol que nasce![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() eX-ex |