eXtinto



30.10.04
Natália Correia
(versão 1073c - série "artes")
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
Ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.
E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.
Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.
E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

caricaturada por Vasco
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24.10.04
Sophia de Mello Breyner Andresen
(versão 1058b - série "artes")

Se tanto me dói que as coisas passem

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

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20.10.04
João Melo
(versão 1053a - série "artes")

Homo Angolensis

Mastiga a própria desgraça
com ela improvisa uma farra
precisa de uma boa maka
como do ar para respirar
acha o mundo demasiado pequeno
pró seu coração
ri à toa fornica por disciplina
revolucionária
jura que um dia será potência
gosta de funje todos os sábados
e foge do trabalho na segunda
mas fica limão
quando lhe querem abusar



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17.10.04
António Ramos Rosa
(versão 1045a - série "artes")
Estou vivo e escrevo sol
Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

(no dia do seu 80.º aniversário)
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14.10.04
Zetho Cunha Gonçalves
(versão 1039a - série "artes")
Os ombros modulam o vento


Entristece
a tua tristeza - e canta
(os ombros modulam o vento
modulam a noite
a soberana voz
dos horizontes)

entristece
a tua tristeza
- e canta

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9.10.04
Sebastião Alba
(versão 1026c - série "artes")
Ninguém meu amor
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

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2.10.04
Sebastião Alba
(versão 1007b - série "artes")
Um anjo erra (o amor confuso)
Um anjo erra
nos teus olhos diurnos

humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas

místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas

cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala

ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida

colocamos um sonho
em cada nicho
e no círculo formado pelas nossas bocas

subentende-se com verve
a língua.
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