Sophia de Mello Breyner Andresen
(versão 1144d - série "artes")
Poesia
Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.
Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.
pensado por élico o anjo at 11:34 PM
António Botto
(versão 1132a - série "artes")
A beleza

A beleza
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza
Não é mais do que o desejo
Fremente
Que nos sacode...
- O resto, é literatura.
pensado por élico o anjo at 12:19 AM
Al Berto
(versão 1119a - série "artes")
As mãos pressentem
As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar
ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada
pensado por élico o anjo at 11:55 PM
Fernando Pessoa
(versão 1107d - série "artes")
Fingindo-me
Assim me transforme
no fingimento de mim mesmo,
até ao ponto em que cada
meu sentimento natural,
imediatamente assim que nasce
se transforma nos meus sentimentos
de imaginação,
a lembrança transforma-se em sonho,
o sonho no esquecimento dele.
O conhecer-me no não pensar em mim.
pensado por élico o anjo at 11:40 PM
Sebastião Alba
(versão 1091d - série "
artes")
Certo de que voltas, canção (o amor confuso)
Certo de que voltas, canção,
a incerta hora,
espero como quem mora
só, a visitação.
Sei, por sinais e anjos e desviados,
que rebentas dos sonhos desolados
em flores no chão.
Apenas flores, nem nimbos na lapela.
Flores para a mesa,
com o odor da certeza
de água, vinho e pão.
Apenas flores e tu,
ó meu amor sem nome,
e a nossa dupla fome
dum menino nu.
pensado por élico o anjo at 12:34 AM