eXtinto



30.1.05
Alexandre O'Neill
(versão 1293b - série "artes")

Mesa dos sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

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24.1.05
Vinicius de Moraes
(versão 1277b - série "artes")
Soneto da Hora Final

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: - Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás: - Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.


(sugerido por um Júnior Muro à beira de Sarar o olhar...)

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19.1.05
Eugénio de Andrade
(versão 1265c - série "artes")

82.º aniversário



Sobre Flancos e Barcos
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar

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16.1.05
David Mourão-Ferreira
(versão 1254c - série "artes")

Labirinto ou não foi nada
Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

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11.1.05
Fiama Hassa Pais Brandão
(versão 1249b - série "artes")

Perguntai ao muro
Muro, em que meditas,

ao longo da estrada, por estas quintas,

casas, ermos, entre paixões

de alma dos espectros

presentes e vindouros? E os vivos,

porque se escondem

por trás da tua fronte alta,

quieta, seca, que cobiça os astros,

sem saber que o teu corpo

de xisto corre, avança,

mas não pode soltar-se da Terra

e alcançar o Alto?



(fotografia de Brassai)

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1.1.05
Fiama Hassa Pais Brandão
(versão 1231a - série "artes")

Epístola para os meus medos
Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.

O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem

sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,

poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,

da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.

Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,

ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa

que, como eu, degustaste o figo úbere.

Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,

a alegria e as dores de outros que não eu.

E um dia, no alto da catedral de Gaudí,

chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.

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