eXtinto



26.2.05
E.E. Cummings
(versão 1357a - série "artes")

agora todos os dedos desta árvore(querida)têm

agora todos os dedos desta árvore(querida)têm
mãos,e todas as mãos têm pessoas;e
mais cada particular pessoa está(meu amor)
viva do que todos os mundos podem entender

e agora tu és e eu sou agora e nós somos
um mistério que nunca acontecerá,
um milagre que nunca aconteceu-
e brilhando este nosso agora tem de se tornar depois

o nosso depois será uma treva durante a qual
os dedos estão sem mãos;e eu não tenho nenhum
tu:e todas as árvores estão(qualquer uma mais do que cada
sem folhas)o seu silêncio em eterna neve
-mas nunca temas(meu,meu belo
meu florescer)pois também o depois é até




(dedicado ao comentador ainda pocti)


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20.2.05
Pablo Neruda
(versão 1350b- série "artes")

Os teus pés
Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

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16.2.05
António Franco Alexandre
(versão 1334a- série "artes")

Fosses tu deus, seria eu santo

Fosses tu deus, seria eu santo
alimentado a areia e gafanhotos,
sem cessar meditando o único nome
que o horizonte deserto não contém.

Sonho que acordo dentro do meu sonho
para o saber mais certo e mais real,
como místico leio nas entranhas
da ausência a tua sombra desenhada.

E no entanto és gente, sangue e terra,
corpo vulgar crescendo para a morte
incerto no que fazes, no que sentes,
e cioso do tempo que me dás.

Porque sei que me esqueces é que lembro
cada instante o que perco e não vem mais.

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13.2.05
Fernando Pessoa
(versão 1326f- série "artes")
Durmo, cheio de nada, e amanhã


Durmo, cheio de nada, e amanhã
é, em meu coração,
Qualquer coisa sem ser, pública e vã
Dada a um público vão.

O sono! este mistério entre dois dias
Que traz ao que não dorme
À terra que de aqui visões nuas, vazias,
Num outro mundo enorme.

O sono! que cansaço me vem dar
O que não mais me traz
Que uma onda lenta, sempre a ressacar,
Sobre o que a vida faz?!











("Sleep", escultura em terracota de Lea Ann Cogswell)
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8.2.05
Arlindo Barbeitos
(versão 1313a - série "artes")

Esperança


Por entre as margens da esperança e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram

em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras secas
por entre as margens da esperança e da morte


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3.2.05
Fernando Pessoa
(versão 1303e - série "artes")

A Aranha

A ARANHA do meu destino
Faz teias de eu não pensar.

Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.

É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.

A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

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