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29.3.05
Álvaro de Campos
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(versão 1431a - série "artes") Aniversário No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, De ser inteligente para entre a família, E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, O que fui de coração e parentesco. O que fui de serões de meia-província, O que fui de amarem-me e eu ser menino, O que fui - ai, meu Deus !, o que só hoje sei que fui... A que distância! ... (Nem o acho...) O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, Pondo grelado nas paredes... O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lagrimas), O que sou hoje é terem vendido a casa, É terem morrido todos, É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio.... No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Que meu amor, como uma pessoa, este tempo! Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, Por uma viagem metafísica e carnal, Com uma dualidade de eu para mim... Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -, As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... Pára, meu coração! Não penses ! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Hoje já não faço anos. Duro. Somam-se-me dias. Serei velho quando o for. Mais nada. Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! ...
Maninha? Os teus anos serão sempre festejados!... 27.3.05
João Cabral de Melo Neto
(versão 1425a - série "artes") O ovo de galinha
I Ao olho mostra a integridade de uma coisa num bloco, um ovo. Numa só matéria, unitária, maciçamente ovo, num todo. Sem possuir um dentro e um fora, tal como as pedras, sem miolo: e só miolo: o dentro e o fora integralmente no contorno. No entanto, se ao olho se mostra unânime em si mesmo, um ovo, a mão que o sopesa descobre que nele há algo suspeitoso: que seu peso não é o das pedras, inanimado, frio, goro: que o seu é um peso morno, túmido, um peso que é vivo e não morto. II O ovo revela ao acabamento a toda mão que o acaricia, daquelas coisas torneadas num trabalho de toda a vida. E que se encontra também noutras que entretanto mão não fabrica: nos corais, nos seixos rolados e em tantas coisas esculpidas cujas formas simples são obra de mil inacabáveis lixas usadas por mãos escultoras escondidas na água, na brisa. No entretanto, o ovo, e apesar da pura forma concluída, não se situa no final: está no ponto de partida. III A presença de qualquer ovo, até se a mão não lhe faz nada, possui o dom de provocar certa reserva em qualquer sala. O que é difícil de entender se se pensa na forma clara que tem um ovo, e na franqueza de sua parede caiada. A reserva que um ovo inspira é de espécie bastante rara: é a que se sente ante um revólver e não se sente ante uma bala. É a que se sente ante essas coisas que conservando outras guardadas ameaçam mais com disparar do que com a coisa que disparam. IV Na manipulação de um ovo um ritual sempre se observa: há um jeito recolhido e meio religioso em quem o leva. Se pode pretender que o jeito de quem qualquer ovo carrega vem da atenção normal de quem conduz uma coisa repleta. O ovo porém está fechado em sua arquitetura hermética e quem o carrega, sabendo-o, prossegue na atitude regra: procede ainda de maneira entre medrosa e circunspecta, quase beata, de quem tem nas mãos a chama de uma vela. 24.3.05
Vinicius de Moraes
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(versão 1415c - série "artes") Soneto da Separação De repente do riso fez-se o pranto
Silêncioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. 20.3.05
21 de Março: Dia Mundial da Poesia(versão 1400c - série "artes") José Carlos Ary dos Santos
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Poeta Castrado, Não
Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo dromedário fogueira de exibição teorema corolário poema de mão em mão lãzudo publicitário malabarista cabrão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não! Os que entendem como eu as linhas com que me escrevo reconhecem o que é meu em tudo quanto lhes devo: ternura como já disse sempre que faço um poema; saudade que se partisse me alagaria de pena; e também uma alegria uma coragem serena em renegar a poesia quando ela nos envenena. Os que entendem como eu a força que tem um verso reconhecem o que é seu quando lhes mostro o reverso: Da fome já não se fala - é tão vulgar que nos cansa - mas que dizer de uma bala num esqueleto de criança? Do frio não reza a história - a morte é branda e letal - mas que dizer da memória de uma bomba de napalm? E o resto que pode ser o poema dia a dia? - Um bisturi a crescer nas coxas de uma judia; um filho que vai nascer parido por asfixia?! -Ah não me venham dizer que é fonética a poesia! Serei tudo o que disserem por temor ou negação: demagogo mau profeta falso médico ladrão prostituta proxeneta espoleta televisão. Serei tudo o que disserem: Poeta castrado não! 17.3.05
café com cheirinho a poesia...
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(versão 1394a - série "artes") Senhora dos olhos lindos
Senhora dos olhos lindos dai-me a esmola de um olhar Senhora dos olhos lindos porque é que sois tão cruel? As pombas não têm fel e vós sois pomba, senhora... Tormentos vários, infindos, sem dó, me fazeis sofrer... Morto, vós me qu'reis ver, Não é verdade, traidora? Respondei!! Ficais calada!?... Nesse caso, adivinhei... Pois muito bem! Morrerei... Morrerei sem ter pesar!... Minha vida amargurada Eu vos vou dar, deusa qu'rida... Antes porém da «partida» Dai-me a esmola de um olhar!... ...pauzinho de canela e papelinho desenrolado pelo sabor do Poctinho 13.3.05
José Carlos Ary dos Santos
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(versão 1382b - série "artes") Os putos
Uma bola de pano, num charco Um sorriso traquina, um chuto Na ladeira a correr, um arco O céu no olhar, dum puto. Uma fisga que atira a esperança Um pardal de calções, astuto E a força de ser criança Contra a força dum chui, que é bruto. Parecem bandos de pardais à solta Os putos, os putos São como índios, capitães da malta Os putos, os putos Mas quando a tarde cai Vai-se a revolta Sentam-se ao colo do pai É a ternura que volta E ouvem-no a falar do homem novo São os putos deste povo A aprenderem a ser homens. As caricas brilhando na mão A vontade que salta ao eixo Um puto que diz que não Se a porrada vier não deixo Um berlinde abafado na escola Um pião na algibeira sem cor Um puto que pede esmola Porque a fome lhe abafa a dor. ![]() 7.3.05
Ana Paula Tavares
(versão 1374a - série "artes") A Abóbora Menina
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Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha, de segredos bem escondidos
estende-se à distância procurando ser terra
quem sabe possa acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela ventre redondo depois é só esperar nela desaguam todos os rapazes. Distintos
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