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27.4.05
José Carlos Ary dos Santos
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(versão 1505c - série "artes") A cidade é um chão de palavras pisadas
A cidade é um chão de palavras pisadas a palavra criança a palavra segredo. A cidade é um céu de palavras paradas a palavra distância e a palavra medo. A cidade é um saco um pulmão que respira pela palavra água pela palavra brisa A cidade é um poro um corpo que transpira pela palavra sangue pela palavra ira. A cidade tem praças de palavras abertas como estátuas mandadas apear. A cidade tem ruas de palavras desertas como jardins mandados arrancar. A palavra sarcasmo é uma rosa rubra. A palavra silêncio é uma rosa chá. Não há céu de palavras que a cidade não cubra não há rua de sons que a palavra não corra à procura da sombra de uma luz que não há. 23.4.05
João Cabral de Melo Neto
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(versão 1491b - série "artes") Tecendo a Manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. 2. E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão. 17.4.05
Vitorino Nemésio
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(versão 1480a - série "artes") A Concha
A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou nos nichos. E telhados de vidro, e escadarias Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! Lareira aberta ao vento, as salas frias. A minha casa. . . Mas é outra a história: Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço, Sentado numa pedra de memória. 14.4.05
Alexandre O'Neill
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(versão 1476d - série "artes") Divertimento com sinais ortográficos
... Em aberto, em suspenso Fica tudo o que digo. E também o que faço é reticente... : Introduzimos, por vezes, Frases nada agradáveis... . Depois de mim maiúscula Ou espaço em branco Contra o qual defendo os textos , Quando estou mal disposta (E estou-o muitas vezes...) Mudo o sentido às frases, Complico tudo... ! Não abuses de mim! ? Serás capaz de responder a tudo o que pergunto? ( ) Quem nos dera bem juntos Sem grandes apartes metidos entre nós! ^ Dou guarida e afecto A vogal que procure um tecto. 11.4.05
Mário de Sá-Carneiro
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(versão 1467a - série "artes") Vontade de dormir
A soerguer-me na poeira - Cada um para o seu fim, Cada um para o seu norte... - Ai que saudades da morte... ................................................... Quero dormir... ancorar... ................................................... Arranquem-me esta grandeza! - P'ra que me sonha a beleza, Se a não posso transmigrar?... (Desenho de Almada Negreiros) 10.4.05
João Teixeira Lopes
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(versão 1463a - série "artes") Do anoitecer
A derradeira luz pousou em teus ombros. Leve, levíssima, eras já estrela.
(Foto de Thierry Le Gouès) 5.4.05
Sebastião Alba
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(versão 1452d - série "artes") Há poetas com musa. Muitos.
Há poetas com musa. Muitos. Eu, neste jardim do Éden, a cargo do município, onde um velho destece a sua vida e, baixando o olhar, ainda lhe afaga a trama, quando a poesia se afoita, amuo na agrura de, ao acordar, tê-la sonhado. (fotografia de Antonio Covarsí, da série desnudos) 2.4.05
Rafael Alberti
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(versão 1448d - série "artes")
Hace falta estar ciego Hace falta estar ciego,
tener como metidas en los ojos raspaduras de vidrio, cal viva, arena hirviendo, para no ver la luz que salta en nuestros actos, que ilumina por dentro nuestra lengua, nuestra diaria palabra. Hace falta querer morir sin estela de gloria y alegría, sin participación de los himnos futuros, sin recuerdo en los hombres que juzguen el pasado sombrío de la tierra. Hace falta querer ya en vida ser pasado, obstáculo sangriento, cosa muerta, seco olvido Distintos
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