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30.6.05
Mário de Sá-Carneiro
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(versão 1627c - série "artes") Escavação Numa ânsia de ter alguma coisa,
Divago por mim mesmo a procurar, Desço-me todo, em vão, sem nada achar; E a minh'alma perdida não repousa. Nada tendo, decido-me a criar: Brando a espada: sou luz harmoniosa E chama genial que tudo ousa Unicamente à força de sonhar... Mas a vitória fulva esvai-se logo... E cinzas, cinzas só, em vez de togo... - Onde existo que não existo em mim? ............................................................ ............................................................ Um cemitério falso sem ossadas, Noites d'amor sem bocas esmagadas - Tudo outro espasmo que princípio ou fim... 26.6.05
Eugénio de Andrade
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(versão 1612f - série "artes") As Palavras Interditas
Os navios existem e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no vento, regressam nos rios. Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar. Anoitece. Não há dúvida, anoitece. É preciso partir, é preciso ficar. Os hospitais cobrem-se de cinza. Ondas de sombra quebram nas esquinas. Amo-te... E abrem-se janelas mostrando a brancura das cortinas. As palavras que te envio são interditas até, meu amor, pelo halo das searas; se alguma regressasse, nem já reconhecia o teu nome nas minhas curvas claras. Dói-me esta água, este ar que se respira, dói-me esta solidão de pedra escura, e estas mãos noturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura. E a noite cresce apaixonadamente. Nas suas margens vivas, desenhadas, cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas. 21.6.05
Eugénio de Andrade
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(versão 1612f - série "artes") É urgente o amor
É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer. (apropriação da sugestão e, por isso mesmo, dedicado a C.) 20.6.05
Eugénio de Andrade
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(versão 1606e - série "artes") Essa mulher, a doce melancolia
Essa mulher, a doce melancolia dos seus ombros, canta. O rumor da sua voz entra-me pelo sono, é muito antigo. Traz o cheiro acidulado da minha infância chapinhada ao sol. O corpo leve quase de vidro. 13.6.05
Eugénio de Andrade
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(versão 1594d - série "artes")
(1923 - 2005) Há Dias
Há dias em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima depois ao chegarmos à varanda avistamos as crianças correndo no molhe enquanto cantam não lhes sei o nome uma ou outra parece-me comigo quero eu dizer : com o que fui quando cheguei a ser luminosa presença da graça ou da alegria um sorriso abre-se então num verão antigo e dura dura ainda. 12.6.05
Ana Hatherly
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(versão 1590b - série "artes") O círculo... O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero. É ciclo, é ciência. Nele se inclui todo o mistério E toda a sapiência. É o que está feito, Perfeito e determinado, É o que principia No que está acabado. A viagem que o meu ser empreende Começa em mim, E fora de mim, Ainda a mim se prende. A senda mais perigosa. Em nós se consumando, Passando a existência Mil círculos concêntricos Desenhando. (Red Circle Square de Ruth Adler) 7.6.05
Ana Hatherly
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(versão 1581a - série "artes") Os caracóis e as carpas têm cornos os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia? as carpas e os caracóis não têm cornos vês, eu não te dizia? as caracoias e os carpos têm cornos vês, eu não te dizia? os carapoicos e os parcos não têm cornos vês, eu não te dizia? as carapaias e os porcos têm cornos vês, eu não te dizia? os caracoicos e as parras não têm cornos vês, eu não te dizia? as carassaias e os parcas têm cornos vês, eu não te dizia? os caracorpos e as praias não têm cornos vês, eu não te dizia? as caracaias e os poicos têm vês Distintos
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