eXtinto



30.10.05
Mário de Sá-Carneiro
(versão 1738d- série "artes")

Como eu não possuo


Olho em volta de mim. Todos possuem -
Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.


Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh'alma pára e não os sente!


Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção p'ra me afundar no lodo.


Não sou amigo de ninguém. P'ra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse - ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...


Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...


Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria...


Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases doirados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo.
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25.10.05
Hélder Muteia
(versão 1733a- série "artes")

Ensaio de Lágrimas

Se as nossas lágrimas
apagassem o ódio que nos cerca
e apagassem também o fogo que nos mata
mãe
eu perdiria as lágrimas de todos
sangrando as pupilas.

Mas temo, mãe
que nos afoguemos um dia
dentro das nossas lágrimas.



Les Larmes (1974) de Leonor Fini
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20.10.05
Vinicius de Moraes
(versão 1728d - série "artes")

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.

E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

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16.10.05
Charles Baudelaire
(versão 1718a - série "artes")

Dedico este poema a mim mesmo

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e marmóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,
O túmulo, no qual em sonho me abandono

- Porque o túmulo há sempre de entender o poeta -,

Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,
Dir-te-á: "De que valeu cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?"

- E o verme te roerá como um remorso lento.






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12.10.05
David Mourão-Ferreira
(versão 1712d - série "artes")

Crespúsculo

É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;

Quando a noite se destaca
da cortina;

Quando a carne tem o travo
da saliva,

e a saliva sabe a carne
dissolvida;

Quando a força de vontade
ressuscita;

Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...

E quando às sete da tarde
morre o dia

- que dentro de nossas almas
se ilumina,

com luz lívida, a palavra
despedida.







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9.10.05
Rafael Alberti
(versão 1706e - série "artes")


Hoy las nubes me trajeron,
volando, el mapa de España.
¡Qué pequeño sobre el río,
y qué grande sobre el pasto
la sombra que proyectaba!


Se le llenó de caballos
la sombra que proyectaba.
Yo, a caballo, por su sombra
busqué mi pueblo y mi casa.


Entré en el patio que un día
fuera una fuente con agua.
Aunque no estaba la fuente,
la fuente siempre sonaba.
Y el agua que no corría
volvió para darme agua.




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4.10.05
Ana Hatherly
(versão 1690c - série "artes")

Que é voar?


Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência

E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo...


Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

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