Álvaro de Campos
(versão 1786a - série "artes")
Quero acabar
Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas flebilmente sobre a colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstrata.
O que vivi? Era tão bom dormir!
pensado por élico o anjo at 1:03 AM
Jorge Luis Borges
(versão 1775a - série "artes")
A un gato
No son más silenciosos los espejos
ni más furtiva el alba aventurera;
eres, bajo la luna, esa pantera
que nos es dado divisar de lejos.
Por obra indescifrable de un decreto
divino, te buscamos vanamente;
más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.
Tu lomo condesciende a la morosa
caricia de mi mano. Has admitido,
desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás. Eres el dueño
de un ámbito cerrado como un sueño.
pensado por élico o anjo at 10:55 PM
Fiama Hasse Pais Brandão
(versão 1764c - série "artes")
Sótão
Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.
(fotografia de Pablo Bravo)
pensado por élico o anjo at 5:33 PM
Arlindo Barbeitos
(versão 1759b - série "artes")
pela névoa de pesadelo
pela névoa de pesadelo
a dor passa
clandestina
a fronteira dos instantes
e implacável
monta guarda
ao porão dos dias
ao contorno dos gestos
ao ruído das coisas
e
ao sentido das palavras
embaciadas
pela névoa do pesadelo
pensado por élico o anjo at 10:52 PM
Torquato da Luz
(versão 1750a - série "artes")
Perguntar

Tudo o que sempre fiz foi perguntar.
Jamais qualquer interesse me moveu
que não fosse o de tentar
saber quem sou eu.
Tendo a dúvida por lema,
vi passarem tão rápidos os dias
que nada mais me resta além do poema
com que iludo as mãos vazias.
E, no entanto, algo me impele
a perguntar, a sempre perguntar.
Não sei vestir outra pele
nem é outro o meu olhar.
pensado por élico o anjo at 11:28 PM