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24.12.05
Carlos Drummond de Andrade
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(versão 1854b - série "artes") O mundo é grande
O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. Votos de Boas Festas e de um Feliz Natal.
(foto de michael walker) 20.12.05
Bocage
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(versão 1849a - série "artes") O Macaco Declamando
Um mono, vendo-se um dia Entre brutal multidão, Dizem que lhe deu na cabeça Fazer uma pregação. Creio que seria o tema Indigno de se tratar; Mas isto pouco importava, Porque o ponto era gritar. Teve mil vivas, mil palmas, Proferindo à boca cheia Sentenças de quinze arrobas, Palavras de légua e meia. Isto acontece ao poeta, Orador, e outros que tais; Néscios o que entendem menos É o que celebram mais. "Monkey With a Dandy Banana" de Ron English 17.12.05
Augusto Gil
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(versão 1841a - série "artes") Balada da Neve
Batem leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente e a chuva não bate assim. É talvez a ventania: mas há pouco, há poucochinho, nem uma agulha bulia na quieta melancolia dos pinheiros do caminho... Quem bate, assim, levemente, com tão estranha leveza, que mal se ouve, mal se sente? Não é chuva, nem é gente, nem é vento com certeza. Fui ver. A neve caía do azul cinzento do céu, branca e leve, branca e fria... - Há quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu! Olho-a através da vidraça. Pôs tudo da cor do linho. Passa gente e, quando passa, os passos imprime e traça na brancura do caminho... Fico olhando esses sinais da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais, os traços miniaturais duns pezitos de criança... E descalcinhos, doridos... a neve deixa inda vê-los, primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!... Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!... E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa. Cai neve na Natureza - e cai no meu coração. 14.12.05
Maria Tereza Horta
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(versão 1836a - série "artes") As nádegas
Porque das nádegas a curva sempre oferece a fenda o rio o fundo do buraco Para esconso uso do corpo nunca o fraco poder do corpo em torno desse vaso Ambíguo modo de ser usado e visto De todo o corpo aquele menos dado preso que está já do próprio vicio e mais não é que o limiar de um acto (fotografia de Alain Giraud) 8.12.05
Florbela Espanca, 75 anos depois
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(versão 1819d - série "artes")
Cinzento Poeiras de crepúsculos cinzentos. Lindas rendas velhinhas, em pedaços, Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços, Como brancos fantasmas, sonolentos... Monges soturnos deslizando lentos, Devagarinho, em misteriosos passos... Perde-se a luz em lânguidos cansaços... Ergue-se a minha cruz dos desalentos! Poeiras de crepúsculos tristonhos, Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos, A névoa das saudades que deixaste! Hora em que teu olhar me deslumbrou... Hora em que a tua boca me beijou... Hora em que fumo e névoa te tornaste... (para saber mais sobre Florbela Espanca clique na fotografia) 4.12.05
Álvaro de Campos
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(versão 1812d - série "artes") O Sono
O sono que desce sobre mim, O sono mental que desce fisicamente sobre mim, O sono universal que desce individualmente sobre mim - Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir, O sono da vontade de dormir, O sono de ser sono. Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: E o sono da soma de todas as desilusões, É o sono da síntese de todas as desesperanças, É o sono de haver mundo comigo lá dentro Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso. O sono que desce sobre mim É contudo como todos os sonos. O cansaço tem ao menos brandura, O abatimento tem ao menos sossego, A rendição é ao menos o fim do esforço, O fim é ao menos o já não haver que esperar. Há um som de abrir uma janela, Viro indiferente a cabeça para a esquerda Por sobre o ombro que a sente, Olho pela janela entreaberta: A rapariga do segundo andar de defronte Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. De quem?, Pergunta a minha indiferença. E tudo isso é sono. Meu Deus, tanto sono! ... (fotografia de Xavier Zimbardo) 1.12.05
Fernando Pessoa
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(versão 1805i - série "artes") Viajar! Perder países!
Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente! Não pertencer nem a mim! Ir em frente, ir a seguir A ausência de ter um fim, E a ânsia de o conseguir! Viajar assim é viagem. Mas faço-o sem ter de meu Mais que o sonho da passagem. O resto é só terra e céu. Distintos
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