eXtinto



17.1.06
Bocage
(versão 1885c - série "artes")

Sobre estas duras


Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas.

Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros e sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro.




Lágrimas Negras (Black Tears - 1973) de Jan Saudek. Mais elucubrações deste fotógrafo publicadas no: NãO se NASCE, FICA-se

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12.1.06
Bocage
(versão 1880b - série "artes")
Magro, de olhos azuis

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.


(Manuel Maria Barbosa du Bocage, 1765-1805)
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8.1.06
S.O.S. Livraria Poetria
(versão 1873a - série "artes")
Não costumo sucumbir a petições, mas ele há acções que merecem o singelo contributo do eXtinto. Para que não se eXtingam alguns dos gostos de que gosto...

Comece o ano com poesia, aplicando a 2006 a sábia e límpida palavra de Daniel Faria:

"Seja o que for
Será bom.
É tudo
."


Ajude a Poetria a vencer a crise. Basta que os visite (ou volte a visitar) e lhes compre um livro de poesia ou teatro.
Se preferir recebê-lo comodamente em sua casa, à cobrança, só precisa que lhes indique um título ou um nome de autor, assim como o nome e endereço de destino.
Também podem escolhê-lo por si, se gostar de ser surpreendido(a) e lhes disser qual o montante limite. Prometem não o(a) desapontar.


A sua intervenção poderá evitar o desaparecimento da ÚNICA LIVRARIA NA PENÍNSULA IBÉRICA onde só moram livros de poesia e teatro.

Ousam pedir um pouco mais: que divulgue a sua mensagem pelos seus amigos e outros correspondentes, se não vir nisso inconveniente.

"Abraça-me com força
agora que vou morrer
"

(Manuel de Freitas, in "Jukebox")

Livraria Poetria - Rua das Oliveiras, 70 - r/c, ljs 5/13 - 4050-448 Porto (frente ao Teatro Carlos Alberto); Telefone: 222 000 436; e-mail: poetria@sapo.pt

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5.1.06
Fernando Pessoa
(versão 1864j - série "artes")

Dizem que finjo ou minto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é,
Sentir, sinta quem lê!

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