eXtinto



30.3.06
Gastão Cruz
(versão 1957b - série "artes")

Não cantes o meu nome em pleno dia

Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria

Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias
não retenhas as sílabas caídas
do meu nome da tua boca extinta

Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantes
com a tua alegria



Lips da série Mystery of the body - Foto de Baciar

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26.3.06
Gastão Cruz
(versão 1947a - série "artes")

Estrada


A bátega do corpo

incorporado num céu feito de

carne

desenha a fogo a estrada que reúne

as margens que separa

se o futuro

se apaga no futuro se todo o tempo

é guerra e

a pele dos homens tatuagem


(imagem do filme The Pillow Book de Peter Greenaway)

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21.3.06
Ruy Cinatti
(versão 1941c - série "artes")

Vigília

Paralelamente sigo dois caminhos
Abstrato na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo
Está por descobrir. Não seque a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto.

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens noturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.

Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.


Les yeux clos (1890) de Odilon Redon
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12.3.06
Natércia Freire

(versão 1935b - série "artes")


Areia

Areia pisada,
areia dorida,
areia beijada,
areia batida,
areia doirada,
areia estendida,
areia rolada,
rolada na vida.

Frescura abraçada
ao mar que se vai,
e os braços crispados
pregados num ai.
E a areia rolada
nos olhos profundos,
e as matas de sombra
ao fundo dos mundos...

E o paço de pedra
Erguido no espaço
e as capelas tristes
que perco e abraço...



E o sonho do vento,
que gela e que deixa,
e a voz que ergo e calo
e é vida e é queixa...

Os degraus que subo
e são mais que cem,
e os cisnes vogando
nos lagos de além...

E as estradas brandas
onde correm fontes,
e as moças que sonham
sem verem os montes...

E os bancos abertos
aos corpos cansados,
e a chuva da tarde
nos parques molhados...

E os riscos de luz
que bordam o Céu,
e a cortina branca
que ao Sol me escondeu...

E os quartos alheios
que giram à roda,
e as vozes na estrada
que me tolhem toda...

E eu dentro de um sonho
suspensa e vibrante
- areia beijada num mar mais distante -
e rica e mais longa,
e presa e mais livre
- sem mal e sem vida...

Areia doirada,
areia estendida,
areia rolada,
rolada na vida!

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9.3.06
Natércia Freire
(versão 1929a - série "artes")

Nos dias imaculados

Nos dias imaculados
Em que ninguém bate à porta,
Naqueles dias lavados
Em que sou anjo e sou morta,

Em que da luz dos desertos
Partem chamadas e gritos,
E à flor dos olhos abertos
Se adormecem infinitos...

Tudo a escorrer frio e ordem,
Horas certas e contadas,
Sem que os soluços me acordem
Mesmo a dar-me chicotadas.

E me rasguem pele e calma,
E me atirem para o fundo
- O fundo da minha alma,
O fundo do Fim do Mundo.

E de rojo, como dantes,
Me larguem pelos caminhos.
E me esmaguem os Gigantes
E me intimidem os ninhos.

E ao curso ingénuo dos rios
Me entreguem como uma folha,
Bem ressequida... e bem morta!
P'ra que ninguém me recolha.

Mudas viagens eu faça
Nas águas que ninguém olha.

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5.3.06
Natália Correia
(versão 1915f - série "artes")

O Espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

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