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29.4.06
Vinicius de Moraes
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(versão 2016e - série "artes") Mar
Na melancolia de teus olhos Eu sinto a noite se inclinar E ouço as cantigas antigas Do mar. Nos frios espaços de teus braços Eu me perco em carícias de água E durmo escutando em vão O silêncio. E anseio em teu misterioso seio Na atonia das ondas redondas Náufrago entregue ao fluxo forte Da morte. Silence de Kristin Dorfhuber 25.4.06
Manuel Alegre
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(versão 2008a - série "artes") Abril de Abril Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus Abril de novos ritmos novos rumos. Era um Abril comigo Abril contigo ainda só ardor e sem ardil. Abril sem adjectivo Abril de Abril. Era um Abril na praça Abril de massas era um Abril na rua Abril a rodos Abril de sol que nasce para todos. Abril de vinho e sonho em nossas taças era um Abril de clava Abril em acto em mil novecentos e setenta e quatro. Era um Abril viril Abril tão bravo Abril de boca a abrir-se Abril palavra esse Abril em que Abril se libertava. Era um Abril de clava Abril de cravo Abril de mão na mão e sem fantasmas esse Abril em que Abril floriu nas armas. 22.4.06
Daniel Filipe
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(versão 1993b - série "artes") Morna
É já saudade a vela, além. Serena, a música esvoaça na tarde calma, plúmbea, baça, onde a tristeza se contém. os pares deslizam embrulhados de sonhos em dobras inefáveis. (Ó deuses lúbricos, ousáveis erguer, então, na tarde morta a eterna ronda de pecados que ia bater de porta em porta!) E ao ritmo túmido do canto na solidão rubra da messe, deixo correr o sal e o pranto - subtil e magoado encanto que o rosto núbil me envelhece. (foto de Erwin Olaf) 18.4.06
Daniel Filipe
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(versão 1985a - série "artes") Desnecessária explicação Que importa a melodia,
se acaso aos outros dou, com pávida alegria, o pouco que me sou? Que importa ao que me sabe estar só no meu caminho, se dentro de mim cabe a glória de ir sozinho? Que importa a vã ternura das horas magoadas, se ao meu redor perdura o eco das passadas? Que importa a solidão e o não saber onde ir, se tudo, ao coração, nos fala de partir? (foto de Uwe Hermann) 15.4.06
Gastão Cruz
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(versão 1978c - série "artes") Transe Num tempo neutro acordo
entre a noite e o dia sob um céu ilegítimo condensa-se a mudança nuvens totais exprimem a presente longínqua madrugada as aves sobrevivem na queda ao tempo branco Acordo sob um céu um tecto dum quarto É uma imagem pobre uma velha metáfora. No exterior porém das paredes toalhas além dos vidros turvos de nuvens apagadas agride-me a imagem invísivel opaca da madrugada externa que no dia se espalha como uma norma espessa uma neutra linguagem O céu é como um poço como um mar como um lago comparações banais mas as mais eficazes onde aves como peixes transitam lentamente errando nas palavras Procuro adormecer o silêncio do dia inutiliza a vida Provavelmente nada mudará ou talvez tudo tenha mudado há muito ou vá mudando sob o lago do céu onde os peixes descrevem ilegítimos voos como velhas metáforas. Top Withens (1945) de Bill Brandt 8.4.06
José Gomes Ferreira
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(versão 1971b - série "artes") Agora, apodrecer Agora, apodrecer.
Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos... desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos... ...mas apodrecer. Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo... "como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros... ... mas apodrecer. Sim, apodrecer de pé e mecânico, a rolar pelo mundo nesta bola de vidro, já sem olhos para aguçar peitos e o sol a nascer todos os dias no emprego burocrático de dar razão aos relógios, cada vez mais necessários para as certidões da morte exata, Sim, apodrecer ... "...as mãos, a cólera, o frio, as pálpebras, o cabelo a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo... ... mas apodrecer! Sujar estrelas. 1.4.06
José Gomes Ferreira
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(versão 1962a - série "artes") (1900 - 1984)
Menino que vais na rua Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra! Cospe no céu e na lua e aprende a pisar a terra. Aprende a pisar o Mundo. Deixa a lua aos violinos dos olhos dos vagabundos e dos poetas caninos. Aprende a pisar a vida. Deixa a lua às costureiras - pobre moeda caída de quem não tem algibeiras. Aprende a pisar no chão o silêncio do luar sem sentir no coração outras pedras a gritar. Pisa a lua sem remorsos, estatelada no solo... Não hesites! Quebra os ossos dessa criança de colo. Pisa-a, frio, com coragem, sem olhos de serenata: que isso que vês na paisagem não é ouro nem é prata. Menino que vais na rua, não chores, nem cantes: berra! ou, então, salta p'rá lua e mija de lá na terra. Distintos
Elevador - RecentementExtintos
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