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31.12.06
Fernando Pessoa
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(versão 2218m - série "artes") Começa hoje o ano
Nada começa: tudo continua. Onde 'stamos, que vemos só passar? O dia muda, lento, no amplo ar; Múrmura, em sombras, flui a água nua. Vêm de longe, Só nosso vê-las teve começar. Em cadeias do tempo e do lugar, É abismo o começo e ausência. Nenhum ano começa. É Eternidade! Agora, sempre, a mesma eterna Idade, Precipício de Deus sobre o momento, Na curva do amplo céu o dia esfria, A água corre mais múrmura e sombria E é tudo o mesmo: e verbo e pensamento. (Foto de Odd Arne Lande) 28.12.06
Alda Lara
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(versão 2209b- série "artes") Testamento
À prostituta mais nova Do bairro mais velho e escuro, Deixo os meus brincos, lavrados Em cristal, límpido e puro... E àquela virgem esquecida Rapariga sem ternura, Sonhando algures uma lenda, Deixo o meu vestido branco, O meu vestido de noiva, Todo tecido de renda... Este meu rosário antigo Ofereço-o àquele amigo Que não acredita em Deus... E os livros, rosários meus Das contas de outro sofrer, São para os homens humildes, Que nunca souberam ler. Quanto aos meus poemas loucos, Esses, que são de dor Sincera e desordenada... Esses, que são de esperança, Desesperada mas firme, Deixo-os a ti, meu amor... Para que, na paz da hora, Em que a minha alma venha Beijar de longe os teus olhos, Vás por essa noite fora... Com passos feitos de lua, Oferecê-los às crianças Que encontrares em cada rua... Hungry For Your Touch (1971) de Jan Saudek 23.12.06
boas são as festas(versão 2208c - série "amor") 1
mas festas deliciosas, coloridas pelos milhares de sabores e afectos, sempre presentes nas recordações que o ontem nos legou. Outros tantos desejos para 2007. Para todos. Bocage, Rui Knopfli, Juan Luis Panero, Ruy Cinatti, Natália Correia, Natércia Freire, Gastão Cruz, José Gomes Ferreira, Daniel Filipe, Manuel Alegre, Vinicius de Moraes, Sebastião Uchoa Leite, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Glauco Mattoso, Mário de Sá-Carneiro, Rafael Alberti, Nuno Júdice, Konstandinos Kavafis, Rainer Maria Rilke, Mário Cesariny, Al berto e Alda Lara... estiveram comigo em 2006 22.12.06
Alda Lara
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(versão 2204a- série "artes") Quadras da minha solidão
Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora... Como é breve o sol daqui! E como é longa esta hora... Donde estou vejo partir quem parte certo e feliz. Só eu fico. E sonho ir, rumo ao sol do meu país... Por isso as asas dormentes, suspiram por outro céu. Mas ai delas! tão doentes, não podem voar mais eu... que comigo, preso a mim, tudo quanto sei de cor... Chamem-lhe nomes sem fim, por todos responde a dor. Mas dor de quê? dor de quem, se nada tenho a sofrer?... Saudade?... Amor?... Sei lá bem! É qualquer coisa a morrer... E assim, no pulso dos dias, sinto chegar outro Outono... passam as horas esguias, levando o meu abandono... (Autumn de Thomas Ernst Hulme) 17.12.06
Rainer Maria Rilke
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(versão 2196d - série "artes") Solidão
Não: uma torre se faça do meu peito e eu próprio seja posto à sua beira: onde nada mais há, haja inda uma vez dores e inefabilidade, mais uma vez mundo. Mais uma coisa só no desmedido, que se faz escura e de novo se ilumina, mais uma última, ansiosa face, repelida para o nunca-alcalmável, mais uma extrema face de pedra, dócil aos seus pesos interiores, que as amplidões, que serenamente a aniquilam, obrigam a ser sempre mais feliz. (foto de Douglas Herr) 9.12.06
Mário Cesariny
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(versão 2190c - série "artes") Passagem dos elefantes
Elefantes na água optimistas à solta optimistas à solta elefantes na árvore elefantes na árvore optimistas na esquadra optimistas na esquadra elefantes no ar elefantes no ar optimistas em casa optimistas em casa elefantes na esposa elefantes na esposa optimistas no fumo optimistas no fumo elefantes na ode elefantes na ode optimistas na raiva optimistas na raiva elefantes no parque elefantes no parque optimistas na filha optimistas na filha elefantes zangados elefantes zangados optimistas na água optimistas na água elefantes na árvore. 5.12.06
Mário de Sá-Carneiro
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(versão 2183g - série "artes") Último soneto
Que rosas fugitivas foste ali: Requeriam-te os tapetes - e vieste... - Se me dói hoje o bem que me fizeste, É justo, porque muito te devi. Em que seda de afagos me envolvi Quando entraste, nas tardes que apareceste - Como fui de percal quando me deste Tua boca a beijar, que remordi... Pensei que fosse o meu o teu cansaço - Que seria entre nós um longo abraço O tédio que, tão esbelta, te curvava... E fugiste... Que importa ? Se deixaste A lembrança violeta que animaste Onde a minha saudade a Cor se trava?... 1.12.06
Al Berto
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(versão 2178d - série "artes") SIDA
aqueles que têm nome e nos telefonam um dia emagrecem - partem deixam-nos dobrados ao abandono no interior duma dor inútil muda e voraz arquivámos o amor no abismo do tempo e para lá da pele negra do desgosto pressentimos vivo o passageiro ardente das areias - o viajante que irradia um cheiro a violetas nocturnas acendemos então uma labareda nos dedos acordamos trémulos confusos - a mão queimada junto ao coração e mais nada se move na centrifugação dos segundos - tudo nos falta nem a vida nem o que dela resta nos consola e a ausência fulgura na aurora das manhãs e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos o rumor do corpo a encher-se de mágoa assim guardamos as nuvens breves os gestos os invernos o repouso a sonolência o vento arrastando para longe as imagens difusas daqueles que amámos mas não voltaram a telefonar (foto de Wilton Tifft) Distintos
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