eXtinto



25.2.07
Ruy Belo
(versão 2308a - série "artes")


Digam que foi mentira

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum






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13.2.07
José Tolentino Mendonça
(versão 2305a - série "artes")

A casa onde às vezes regresso é tão distante

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

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11.2.07
Tonino Guerra
(versão 2299a - série "artes")

Os Dois Irmãos

Um foi prisioneiro na Alemanha
e há trinta anos olha fixamente o pão
como se tivesse a fome de outrora.
O outro fez a guerra em África
e a água no copo contempla-a
com a sede do deserto.
Hoje fechados em casa
não querem ver ninguém.
Dormem de costas voltadas
com o rosto afundado no travesseiro
da grande cama.
Às vezes saem de noite
por estradas largas e vazias
como a Lua e a Terra no céu
um atrás do outro
não se sabe para onde.

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4.2.07
Fernando Assis Pacheco
(versão 2288a - série "artes")

A Profissão Dominante

Meu Deus como eu sou paraliterário
à quinta-feira véspera do jornal
nadando em papel como num aquário
ejectando a minha bolha pontual

de prosa tirada do receituário
onde aprendi o cozido nacional
do boçal fingido o lapidário
- fora algum deslize gramatical -

receio que me chamem extraordinário
quando esta é uma prática trivial
roçando mesmo o parasitário
meu Deus dá-me a tua ajuda semanal

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